Você já deve ter percebido que a vida não segue uma linha reta. Tem fase de crescimento rápido, fase de estagnação, fase de recolhimento, e depois de um tempo tudo volta a se mover de novo. A gente costuma tratar essas variações como acaso, ou como sinal de que alguma coisa deu errado. Na filosofia oriental, esse movimento tem nome, tem lógica, e se repete em qualquer escala, do dia inteiro até uma vida inteira.

De onde vem essa lógica de ciclos

No I Ching, a explicação começa antes mesmo dos ciclos. Começa na ideia de que tudo parte de uma unidade, uma essência única. Dessa unidade se manifesta a primeira divisão: o yang, representado por uma linha contínua, e o yin, representado por uma linha interrompida. Esses dois princípios não competem entre si. Eles se combinam, e é dessa combinação que nascem os bigramas, formados por duas linhas sobrepostas.

São quatro combinações possíveis. Duas linhas de yang formam o grande yang, o ponto de maior expressão ativa. Duas linhas de yin formam o grande yin, o ponto de maior repouso. Existem ainda duas combinações de transição: yin embaixo com yang em cima forma o pequeno yang, o início de um movimento. Yang embaixo com yin em cima forma o pequeno yin, o começo de uma pausa. Esses quatro bigramas mostram um passo a mais na manifestação, o momento em que a energia começa a tomar forma de ciclo, com nascimento, crescimento e declínio.

As quatro estações dentro do ciclo

Essa lógica fica mais fácil de enxergar quando a gente associa cada bigrama a uma estação do ano. A primavera é o pequeno yang: a vida nasce, a natureza brota nas flores. O verão é o grande yang: a expressão mais ativa da natureza, o calor no ponto máximo. O outono é o pequeno yin: as folhas caem, o sol perde intensidade, começa a pausa. E o inverno é o grande yin: a vida entra em repouso, as árvores ficam sem folhas, a terra descansa até a primavera seguinte recomeçar o ciclo.

Entre o verão e o outono existe ainda um momento de transição, um equilíbrio entre essas quatro fases. É esse ponto de pausa, esse centro entre a expansão e o repouso, que a tradição chinesa reconhece como uma quinta fase dentro do mesmo ciclo.

No vídeo abaixo, eu desenvolvo esse mesmo ciclo aplicado ao dia inteiro e explico como esses quatro bigramas, mais essa pausa central, deram origem aos cinco elementos da tradição chinesa. Assistir esse trecho

O mesmo ciclo que organiza as estações organiza também o dia. Às seis da manhã a vida nasce de novo, é o início do movimento yang. Ao meio-dia o yang chega ao ápice, o momento de maior luz e maior atividade. A partir daí a energia começa a descer, suavemente, até as seis da tarde, quando a noite começa e o yin passa a predominar. Por volta da meia-noite a energia yin está no seu ponto de maior repouso, e é dali que ela recomeça, bem devagar, até o amanhecer. O símbolo do yin yang mostra exatamente esse jogo de forças: a luz crescendo enquanto a escuridão diminui, e o contrário também, num movimento contínuo, sem parte estática.

Essa mesma lógica de ciclo se aplica às fases de uma vida. Existe o nascimento, a infância e a adolescência, depois a juventude até a vida adulta, depois a maturidade, depois a velhice. Em algumas tradições orientais, a morte é entendida como mais uma fase desse ciclo, porque na natureza a morte sempre dá lugar a um novo nascimento. Essa leitura vem da filosofia, de mais de três mil anos de observação da natureza, não de uma comprovação científica formal, e ajuda a enxergar a pausa e o declínio como parte do processo, não como uma falha dele.

Poucas pessoas conhecem outro detalhe: os cinco elementos da tradição chinesa, madeira, fogo, terra, metal e água, seguem essa mesma lógica. Eles nascem diretamente da combinação dos bigramas com a pausa central. A madeira representa a vida brotando, o início do movimento. O fogo representa a plenitude da expansão. A terra representa a pausa, o centro de equilíbrio entre as fases. O metal representa a transição, o momento de declínio. E a água representa o repouso, o ponto de maior recolhimento antes do ciclo recomeçar.

Essa mesma combinação de yin e yang que forma os bigramas segue se desdobrando, um passo à frente, até formar os oito trigramas usados na tradição para mapear o temperamento de uma pessoa. É o mesmo princípio de sempre, só que aplicado numa escala pessoal: entender em qual fase do ciclo o seu temperamento tende a se expressar mais, e em qual fase ele tende a precisar de pausa.