Tem uma pergunta que aparece de tempos em tempos nas minhas conversas com alunos: quanto da vida da gente já vem decidido e quanto depende da gente mudar. É uma pergunta antiga, e a tradição chinesa chegou a uma resposta organizada em cinco fatores, que eu apresentei numa live recente e que vale a pena registrar aqui com calma.

Esses cinco fatores aparecem espalhados nos textos clássicos chineses e também na prática do Feng Shui, que é o estudo de como o ambiente influencia a vida de quem vive nele. A divisão que eu uso separa três fatores mais amplos, que vêm de fora da gente, e dois fatores que nascem só da nossa atitude. Vou explicar cada um, na ordem que faz mais sentido.

O potencial que já vem com o nascimento

O primeiro fator se chama Ming, palavra chinesa que costuma ser traduzida como destino, embora a tradução mais precisa seja destinação ou potencial nato. É aquilo que a gente já recebe ao nascer: o temperamento, as tendências internas, os talentos, as limitações e até questões de saúde de origem hereditária.

Uma imagem que ajuda a entender isso é a semente de um abacateiro. A semente já carrega todo o potencial da árvore que ela pode se tornar, mas ainda não é a árvore. O caminho dela é desenvolver, aos poucos, o que já está ali dentro em potência. É a mesma lógica do Ming: a gente nasce com uma tônica própria, essa tônica não muda, e o que a gente faz com ela depende inteiramente da gente.

Um exemplo concreto ajuda a tornar isso mais claro. Muitos nadadores olímpicos começaram a nadar porque tinham asma quando crianças, e o tratamento da doença acabou revelando um potencial que eles não sabiam que tinham. A limitação fazia parte do Ming, do ponto de partida dado pelo nascimento. O desenvolvimento desse potencial em resultado concreto dependeu da postura de cada um diante da própria condição.

Os ciclos que a tradição chinesa chama de sorte

O segundo fator é o Yun, geralmente traduzido como sorte. Essa tradução engana se a gente pensar em sorte como acaso. O Yun tem a ver com a lei dos ciclos: a natureza se move em fases, cada fase carrega um tipo de energia, e essa energia influencia o momento certo de agir ou de esperar.

O exemplo mais direto é o do agricultor. Existe um momento para arar a terra, um momento para plantar, um momento para cuidar da planta que está nascendo e um momento para colher. Nenhum agricultor decide colher no dia em que sente vontade, ele segue o ciclo. O Yun funciona parecido. Quando a gente lê o momento certo e age de acordo com ele, essa leitura costuma ser chamada de sorte. Quando a gente ignora o ciclo e insiste em agir fora de hora, o resultado costuma ser chamado de azar.

Isso explica por que tanta gente vive frustrada tentando forçar decisões antes da hora: a pressa de resolver tudo agora, do jeito que quer agora, ignora que cada ciclo tem seu próprio ritmo, e esse ritmo não muda porque a pessoa está ansiosa para chegar ao resultado.

A força do ambiente onde você vive

O terceiro fator é o Feng Shui, termo formado por feng, vento, e shui, água, numa referência aos elementos que moldam uma paisagem e, por extensão, moldam quem vive nela. No Ocidente ele ficou conhecido como um estudo de decoração, mas na tradição chinesa é mais amplo: é o estudo de como o ambiente influencia diretamente a vida de quem o habita.

A casa, na tradição chinesa, chega a ser chamada de segundo corpo. Ela carrega uma energia própria, formada pela disposição dos espaços, pela relação com a rua, com o bairro, com o relevo ao redor. Um ambiente equilibrado tende a nutrir os potenciais de quem mora nele, parecido com uma terra fértil que ajuda a semente a se desenvolver. Um ambiente que não favorece certos potenciais exige um esforço redobrado da pessoa para alcançar o mesmo resultado.

No vídeo abaixo eu retomo esses três primeiros fatores com mais exemplos e explico como o Ming Gua, o trigrama pessoal calculado pela data de nascimento, muda a leitura do Yun e da tendência de cada ano, e sigo direto para os dois fatores que dependem só da sua atitude. Assistir esse trecho

A virtude que depende só da sua atitude

O quarto fator é o Dao De, formado por duas palavras. Dao significa caminho, o caminho da natureza, o fluxo geral da vida. De significa virtude ou retidão de caráter. Juntas, as duas palavras descrevem a postura da pessoa diante desse caminho: se ela reconhece as leis da natureza e busca se harmonizar com elas, ou se insiste em ir contra elas.

Esse fator vem de dentro para fora. A educação e a família influenciam, mas o esforço de cultivar integridade, de agir com honestidade estando sozinho ou diante dos outros, depende só da pessoa. A tradição chinesa descreve esse esforço como gerador de um apoio invisível, próximo do que a tradição indiana chama de carma positivo: agir com boas intenções e com conhecimento das leis da natureza tende a abrir caminhos que a pessoa não havia planejado.

O estudo e a ação que fecham o ciclo

O quinto fator é o Du Shu, que numa tradução literal significa ler livros, mas na prática reúne dois movimentos: buscar conhecimento e agir a partir dele. Não adianta acumular teoria sobre a própria natureza, sobre filosofia, sobre as leis que regem a vida, se esse conhecimento não vira ação concreta no dia a dia. Também não adianta agir sem antes buscar entender o que está em jogo.

Como o Dao De, o Du Shu depende só da pessoa. A educação recebida na infância é um dado do passado, mas a busca por conhecimento na vida adulta é uma escolha renovada todos os dias. É esse fator que transforma potencial em resultado, inclusive nas fases em que as circunstâncias não colaboram.

O que muda quando você separa circunstância de atitude

Reunindo os cinco fatores, dá para ver um padrão: Ming, Yun e Feng Shui são fatores mais amplos, que não dependem só da pessoa. Dao De e Du Shu dependem inteiramente dela. Mas até nos três primeiros fatores, a atitude da pessoa diante deles faz diferença, porque a circunstância é uma coisa e a resposta a ela é outra.

O físico Stephen Hawking viveu boa parte da vida com uma doença degenerativa que tirou dele a capacidade de andar e de falar sem o auxílio de aparelhos. A circunstância era severamente limitante. Ainda assim ele produziu trabalho científico relevante, se comunicou por meio de um sintetizador de voz e chegou a saltar de paraquedas. A limitação física fazia parte do Ming dele. A resposta a essa limitação foi construída com Dao De e Du Shu, com atitude e com estudo aplicado.

Uma enchente atingiu boa parte do Rio Grande do Sul há cerca de dois anos, uma catástrofe que afetou praticamente todo o estado. Ali também dava para ver os dois lados da mesma circunstância: parte das pessoas aproveitou o caos para roubar e explorar quem estava mais vulnerável, e parte se superou ajudando estranhos, dividindo o pouco que tinha e assumindo riscos para socorrer outras pessoas. A enchente foi igual para todo mundo. A resposta a ela não foi.

É esse o ponto central dos cinco fatores. Alguns pedaços da vida a gente recebe prontos, outros pedaços a gente constrói todos os dias com a própria atitude, e mesmo dentro dos pedaços que já vêm prontos sobra espaço para decidir como reagir a eles. Entender qual fator está em jogo numa situação específica ajuda a saber onde vale a pena investir esforço e onde vale a pena aceitar o momento e esperar o ciclo virar.