Toda vez que alguém me diz que não acredita em temperamento, eu explico que o ponto não está em acreditar ou não, mas em reconhecer que a gente nasce com uma base emocional e psicológica própria, que vem do organismo, da genética e da herança familiar. Essa base é o temperamento. Depois dela, a vida vai somando duas outras camadas ao longo do tempo: o que a gente aprende convivendo com as pessoas e a atitude que desenvolve diante dos acontecimentos. O temperamento é o ponto de partida, e as outras duas camadas continuam se formando enquanto você vive.
Os quatro temperamentos clássicos e o que cada um revela
A visão clássica vem de Hipócrates e reconhece quatro temperamentos básicos: sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico. Essa divisão tem uma lógica por trás dela. Dois desses temperamentos, o sanguíneo e o colérico, têm um jeito natural de se mostrar para o mundo, eles se expressam para fora. Os outros dois, o fleumático e o melancólico, são mais intimistas, mais reservados, mais voltados para dentro.
O sanguíneo é mais tranquilo, relaxado e comunicativo. Ele junta as pessoas ao redor dele e costuma ser lembrado pela alegria. O colérico também se mostra para fora, mas de outro jeito: é mais assertivo, mais mental, mais sério, e assume o papel de protagonista com facilidade. Por isso ele é tão associado à liderança, enquanto o sanguíneo é associado à sociabilidade.
Do lado mais intimista, o fleumático é sereno, quase sempre tranquilo, o tipo de pessoa que não se abala com facilidade. Já o melancólico sente mais, é mais sensível e mais reflexivo. Ele processa por dentro antes de mostrar qualquer coisa para fora.
O problema é que só quatro temperamentos são pouco para explicar 8 bilhões de pessoas. Existem muitas combinações possíveis entre esses elementos, e é comum alguém se sentir de um jeito por dentro e ser percebido de outro jeito por fora. Isso acontece porque o temperamento clássico descreve só uma tendência geral, sem separar o que você é na sua essência do que você mostra quando está lidando com o mundo. São duas coisas diferentes, mas o sistema de quatro categorias trata as duas como se fossem uma só.
A ponte com os cinco elementos chineses
Quando olho para os quatro temperamentos clássicos, vejo uma relação direta com os cinco elementos chineses, que são madeira, fogo, terra, metal e água. O sanguíneo está ligado à primavera, e na China a primavera é regida pelo elemento madeira, que representa fluidez e iniciativa. O colérico está ligado ao verão, e o verão na China também é regido pelo fogo, com a mesma tônica de ação para fora. O melancólico se aproxima mais do elemento água, ligado ao inverno, e o fleumático se aproxima do elemento metal, ligado ao outono. A terra entra como um quinto aspecto, ligado ao equilíbrio e à centralização, sem correspondência direta nos quatro temperamentos ocidentais.
Essa relação funciona mais como uma variação da mesma observação, feita por culturas diferentes sobre a mesma natureza humana, do que como uma tradução exata de um sistema no outro. E é exatamente aqui que o I Ching, o sistema chinês milenar que eu uso para autoconhecimento aplicado, sem misticismo e sem previsão de futuro, começa a aprofundar o que os quatro temperamentos só esboçam.
O I Ching parte de duas forças básicas, o yin e o yang. O yin é mais introspectivo e mais sensível, o yang é mais extrovertido e mais voltado para a ação. Já dá para perceber a semelhança: sanguíneo e colérico são mais yang, melancólico e fleumático são mais yin. Combinando yin e yang em pares, chega-se a quatro bigramas, que são combinações de duas linhas e se relacionam com os quatro temperamentos e com os quatro elementos. Mas o I Ching não para nos bigramas. Ele combina yin e yang em grupos de três linhas, chamados de trigramas, chegando a oito forças da natureza, mais um nono ponto de equilíbrio no centro. São nove temperamentos possíveis, não quatro. É essa nona camada que faz toda a diferença na hora de entender por que você se sente de um jeito e é visto de outro.
No vídeo abaixo, eu converso com a Isabela, que também trabalha comigo nas consultorias do mapa pessoal, e ela conta como essas nove forças aparecem na prática, incluindo o exemplo real do temperamento dela: vento por dentro e trovão por fora. Assistir esse trecho
O motivo de você ter dois temperamentos ao mesmo tempo
O mapa pessoal do I Ching separa a personalidade em fatores, e dois deles estão diretamente ligados ao temperamento. O primeiro é o temperamento interno, a sua natureza mais íntima, quem você é na sua essência. O segundo é o temperamento externo, que mostra como você se expressa e como lida com a realidade no dia a dia. Como cada um desses fatores tem nove variações possíveis, a combinação entre os dois gera 81 tipos de personalidade, não apenas quatro.
No exemplo real que a Isabela traz no vídeo, o temperamento interno dela é vento, uma variação mais refinada do melancólico, e o temperamento externo é trovão, uma variação específica do colérico ligada à iniciativa e à criatividade. As duas coisas convivem na mesma pessoa, e é justamente essa combinação, vento por dentro e trovão por fora, que explica por que ela é percebida como intensa, embora por dentro seja mais reflexiva e sensível do que aparenta.
Esse cálculo não depende de questionário nem muda com o humor do dia. Ele é feito a partir da data de nascimento e do sexo da pessoa. A energia do momento em que você nasce, ligada ao ano e ao mês, marca essa tendência, do mesmo jeito que a estação do ano marca qual elemento chinês está em vigor.
O terceiro e o quarto fator do mapa
Além do temperamento interno e externo, o mapa traz um terceiro fator: o desafio da vida. Ele é calculado a partir da relação entre o número do temperamento interno e o do externo, e mostra o tipo de situação que se repete na sua trajetória para que você desenvolva as qualidades do seu próprio temperamento. Esse padrão tende a voltar ao longo da vida, até que a lição seja incorporada na prática.
O quarto fator são os ciclos de 20 anos, que marcam uma mentalidade geral compartilhada por quem nasceu no mesmo período. Essa leitura bate com a forma como a psicologia e a sociologia contemporâneas descrevem as gerações, como millennials, geração X e geração Z. Juntando os nove temperamentos internos, os nove externos e os nove ciclos geracionais, chega-se a 729 combinações possíveis de mapa pessoal.
Os cinco elementos chineses entram como ferramenta de harmonização entre essas camadas. Se o seu temperamento interno é de água e o externo é de fogo, por exemplo, essa combinação pode gerar uma tensão entre o que você sente por dentro e o que você mostra por fora. A madeira, que fica entre os dois elementos porque a água alimenta a madeira e a madeira alimenta o fogo, funciona como uma atitude de equilíbrio: mais flexibilidade e mais sensibilidade na forma de agir. O mesmo raciocínio vale para a relação entre duas pessoas. Quando o jeito de se comunicar de alguém não é bem recebido por outra pessoa, ajustar a postura para o elemento que falta entre os dois costuma resolver boa parte do atrito.
Isso vale até para quem convive comigo. O meu temperamento externo é montanha, mais tranquilo e mais pausado, e como eu e a Isabela também somos casados além de sócios, essa diferença de ritmo entre trovão e montanha aparece na nossa rotina o tempo todo, não só no que a gente ensina sobre o assunto.
Entender os dois temperamentos que você carrega, o interno e o externo, é sobre reconhecer um padrão que já existe em você e usar essa informação para se comunicar melhor, tanto consigo mesmo quanto com quem está ao seu lado.